A igreja nunca pode ficar a perder
Unificar é a aposta ganha da formação musical na Lapa
"A igreja nunca pode ficar a perder"
"Tu és importante para a sociedade e para mim. Tens valor e eu quero-te mostrar que tens capacidades para ser bem sucedido". Este é o repto que Filipe Veríssimo, mestre-capela da Igreja da Lapa, lança à comunidade de fiéis. Na manga, dar música de qualidade a um projecto humano contra a ideia de fracasso instalada. Motivar e responsabilizar as pessoas, na véspera do aniversário do primeiro ano em funções. Um punhado de iniciativas para revitalizar a alma da Igreja da Lapa.
Quando é que foi nomeado mestre-capela da Igreja da Lapa?
Dia 1 de Novembro de 2002.
Com que objectivo?
O objectivo era dinamizar a música litúrgica na igreja. Quem estava à frente dessa área eram o Dr. Ferreira dos Santos e os padres Pedroso e Amorim. Enquanto sacerdotes acumulam muitas actividades, pelo que decidiram delegar grande parte do trabalho que estavam a fazer numa outra pessoa.
O que é um mestre-capela?
É a pessoa que está responsável por toda a actividade musical dentro de uma igreja. Tudo aquilo que tenha a ver com música na liturgia, toda a música que existe em cada uma das celebrações tem que passar pela aprovação do mestre-capela. Ele organiza os diversos coros e organistas.
É uma figura recuperada da História?
Exacto. Esteve muito em voga até ao século XVIII. Contudo, no século XIX desapareceu, muito por causa da perda de influência que a Igreja tinha na sociedade. A Igreja esteve muito mal e a música ressentiu-se. Em alguns países da Europa conseguiu-se manter o mestre-capela, mas em Portugal a figura foi arrumada.
Há documentação do apogeu da figura na cidade do Porto?
Existem dezenas de órgãos de tubos, vários compositores do século XVIII e a Sé Catedral do Porto teve mestres-capela. Se tínhamos compositores de música para órgão, organistas e construtores de órgãos, é porque havia uma dinâmica na cidade, mas também em Braga, Vila Viçosa, Évora, Santa Cruz de Coimbra. Temos, inclusivamente, uma época de ouro em Portugal, durante os séculos XVII e XVIII, a dos grandes polifonistas portugueses que eram, quase todos, mestres-capela.
Como decorreu o primeiro ano de actividade?
Acabou por ser um ano de passagem. Quando assumi as minhas funções em Novembro, o ano lectivo já tinha começado. O que estava em andamento não foi parado, mas melhorado na minha perspectiva. Este ano, sim, já estou activo em todas as frentes.
Foi um ano em que estudei e vi como é que a igreja estava a trabalhar nas diversas áreas. Fiz uma síntese e delineei um projecto, para o qual vamos trabalhar neste ano lectivo.
Pode descrever as linhas orientadoras desse projecto?
A Igreja da Lapa já tem fama na área da Música, contudo muito do seu potencial estava a ser desperdiçado, por manifesta indisponibilidade dos padres em se dedicarem exclusivamente à música. A minha ideia é começar a recuperar esse potencial e dinamizá-lo.
Como pretende fazê-lo?
A etapa mais importante é a formação musical dos mais novos. Ela já existe, mas muitas crianças fazem os anos de formação musical e saem da igreja. Não há sequência. Pretendo dar-lhes formação vocal, instrumental e musical para que, à medida que vão crescendo, passem pelos diversos grupos (de crianças, jovens e adultos) que existem na igreja. Para exemplificar, temos um grupo de crianças que até agora funcionou muito mal, porque quando chegavam à adolescência não iam para o grupo de jovens. Como não existia disponibilidade para pensar nessa passagem, algumas crianças perdiam-se. Como consequência, o grupo de jovens não se renovava. Temos vários grupos de adultos que, como não recebem anualmente jovens, vivem de pessoas que não pertencem à comunidade da Lapa. Não são filhos da casa.
Trata-se, portanto, de operar uma mudança de mentalidade?
Não vai ser fácil, mas passa por tentar criar um espírito dentro da igreja ao qual chamo «Projecto Lapa». Ou seja, a Igreja da Lapa nunca pode ficar a perder. Por isso, as pessoas têm que ter consciência de que ela é uma e não existem capelinhas nem grupinhos. Ideia até agora implementada. O projecto é unificar todas as pessoas.
Estamos a falar em quantas?
São centenas. O coro polifónico tem 70 pessoas, o coro de pais 30, o coro de canto gregoriano tem 30, o coro de jovens 35, o coro do Hospital da Lapa 25... Somadas são cerca de 200, além dos organistas, maestros e formadores musicais. Todas elas são importantes para a vida da igreja. Procuro desafiá-las para se ultrapassarem, serem mais participativas e investirem maior capacidade de iniciativa.
No seu projecto, quem se segue às crianças?
Os pais, os quais procuro responsabilizar através da sugestão de iniciativas. Mas também existe a Escola da Lapa, com os quatro anos do ensino básico. Vamos puxar pelos miúdos, porque ali podem estar futuros craques da música. Vamos trabalhar com eles, para ver se conseguimos criar um grupo de pequenos cantores da Igreja da Lapa, tal como existe na Catedral de Viena. Quando as crianças contactam desde muito cedo com música, é claro que as probabilidades de no futuro poderem vir a ser elementos fantásticos na comunidade e na igreja, e até músicos profissionais, são muito maiores. Em qualquer catedral europeia isso acontece. Inglaterra é famosa por isso.
A escola e a catequese são, então, dois pólos nos quais estamos já a trabalhar para a criação, a curto prazo, dos pequenos cantores. Esta base vai alimentar os outros grupos da igreja.
Que alterações pretende implementar na liturgia?
Devido ao elevado número de missas realizadas na Lapa, existia dificuldade em ter música em todas elas. Houve alturas em que tive de tocar em quatro missas num domingo – isso é incomportável. Para alterar esta situação, assumi o desafio de garantir música vocal, de coro e, principalmente, órgão em todas as missas dominicais. Sou o principal de quatro organistas da Lapa: Vítor Moreira, que terminou este ano a licenciatura em Música Sacra na Escola das Artes da Universidade Católica, Paulo Silva, finalista da mesmo curso, e Tiago Ferreira, que frequenta o primeiro ano da Escola das Artes. Temos a missa vespertina, das 19h30, 9, 10, 11, meio-dia, 13, 18h15, 19h30 e 20h30. São nove missas por domingo para quatro organistas. Há ainda um senão: além de organista, dirijo. Ou seja, quando tenho de dirigir, o coro por exemplo, não posso tocar. O esforço é enorme, mas está a correr bem, porque achamos que é um objectivo fundamental.
O salmo responsorial é-lhe muito caro. Porquê?
Tive um professor de música litúrgica que dizia que se o salmo responsorial não fosse cantado era a mesma coisa que não cantar os parabéns num aniversário de alguém. Pela sua natureza, o salmo deve ser cantado. São, por isso, necessárias pessoas com formação vocal e musical que possam cantar o salmo em todas as celebrações. Não podemos pedir à mesma pessoa que cante nas nove celebrações, mas também é muito difícil ter nove pessoas para cantar todos os fins-de-semana o salmo. O salmista tem um magistério muito específico, diferente do organista, do director de coro e do director da assembleia.
Qual seria a situação ideal?
Seria existirem quatro pessoas para quatro funções, mas é muito difícil. Fazemos um esforço para que possa ser uma realidade. O próximo objectivo é que nas missas com coro – a vespertina, as 10, meio-dia, 18h15 e 19h30 – alguns dos elementos com melhor formação sejam preparados para cantar o salmo nas respectivas missas. Isso seria um grande passo. A partir de Novembro, espero concretizá-lo.
Como projecta a mudança de comportamento entre os coros?
O convívio dos coros num dia a definir, à partida um feriado, por considerarmos fundamental que todas as pessoas sintam que fazem parte de um todo, que é o Projecto Lapa. Para já seria um só dia, depois depende da sua reacção. A iniciativa visa quebrar com o passado, com o espírito das capelinhas.
E do interior para fora da Igreja da Lapa?
O aspecto visível para o exterior seria uma apresentação pública de todos os grupos. Existem acções conjuntas em diversas circunstâncias. Por exemplo, 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos. O Dr. Ferreira dos Santos, que é um excelente compositor, podia escrever uma cantata, ou outra obra, onde todos os coros da igreja pudessem participar. No entanto, a igreja também tem organistas, maestros, crianças que tocam xilofone, flautas, instrumentos de percussão. Tentar uma acção conjunta em que todas as pessoas ligadas à música estivessem presentes.
E tem data marcada para essa iniciativa?
Há várias sugestões, mas a minha opção vai para o encerramento do mês de Maria. Normalmente, existe aqui na Lapa, uma representação com quadros encenados e momentos musicais. Nessa altura, distribuíamos os coros pelos varandins, pelo coro alto e assembleia, onde um cantava uma peça pequenina de um lado, e o outro responde de local diverso. A ideia é criar uma dinâmica, ou seja, a bola de neve, porque depois eu já não tenho mão no seu crescimento com a participação das pessoas.
Ser mestre-capela é ocupar um cargo solitário?
Nunca. Não pode ser, porque tudo o que faço é sempre em comunhão o Dr. Ferreira dos Santos. E em menor escala com os padres Amorim e Pedroso. São as principais pessoas com quem trabalho e não faço nada sozinho. Tem que ser um trabalho de equipa. Chegámos a um momento no mundo em que quem imagina que vai fazer um trabalho de qualidade sozinho está muito enganado. O difícil é encontrar uma equipa, boa, consistente e que não nos deixe ficar mal.
Ana Sofia Rosado
O Primeiro de Janeiro
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